julho 24, 2017

Paul



Nunca antes conversara com um suicida. Algo que posso considerar estranho, tendo em conta a minha história familiar. Já foi imenso o choque conseguir entender aquele anseio de paz - até então, por mim, incompreensível. O anseio de perdão. É óbvio que todas as famílias têm segredos e o segredo da minha sempre foi o de ter demasiada gente fraca incapaz de aguentar a sua própria cruz: o meu avô paterno, Paul, viúvo desde os trinta anos, desgastado pelo tédio das tardes quentes de Verão, possivelmente pelo toque gélido do Inverno, enlaçou o pescoço no ramo de um castanheiro, num salto matinal sem pé para um mar de onde não voltaria a emergir; o meu pai, que ao ver-me no berço, sentindo os bolsos vazios há demasiados meses, fugiu das dívidas por uma nesga de escapatória aberta entre a nuca e o pescoço, perfumou os quatro cantos do quarto com o cheiro da pólvora, como se o que verdadeiramente o assustasse fosse o irresistível odor do meu corpo sedento de alimento. Se há coisa de que percebo é suicídios, e é pois óbvio que um tiro no céu da boca teria sido mais eficaz, prático como um abre latas.
Falar com um suicida é termos a morte à nossa frente. É vermos o vazio dos olhos a transbordar de desespero. Não há palavras boas, não há gestos certos. As ideias são páginas de jornal rasgadas deitadas à pressa para o fundo de uma lareira, buraco onde o fogo não aquece a alma, apenas queima a esperança. A primeira conversa é a que menos custa. É a prenda que se desembrulha na manhã de natal mas que a fartura, a oferta desmedida, confunde tudo o que virá a seguir. À surpresa do que  se julgava impossível de ouvir na voz de alguém; de uma pessoa, de um ser-humano, que respira mas que, no entanto, vê na morte o instrumento da salvação do seu mundo, respondemos com o ridículo das frases feitas. A inexperiência de quem sempre interpretou a vida com um princípio, meio e fim, afastado da hipótese de que um caminho pode não ser uma mera união entre dois pontos. Ouvir atentamente um suicida é sentir o medo de querer fazer igual. Na melhor das hipóteses, desejável, é escutar atentamente e resistir. E ter a coragem para dar o murro final que partirá o espelho prostado à nossa frente.
© PVF, da série "Contos Ingleses", 2017)


[o texto nasceu sem fotografia. mas ela já existia e encaixou-se perfeitamente.
obrigada por me desafiares.]



junho 14, 2017

Frank



Na altura não quis perceber mas reconheço agora, vinte anos depois, que podia ter-me desgraçado aos quarenta anos. Nunca recusei um convite. Nunca fingi não ter ouvido o chamamento de uma aposta perigosa. Simplesmente sentir a vontade, deixar-me levar por ela. Vibrar com aquele frio na barriga que desconcerta. Ignorar as consequências, todas. Noites inteiras sem dormir. Noites inteiras em que não vi um colchão ou local que pudesse dizer que conhecia. Cheguei a esquecer onde morava. Quase esqueci o meu nome. A certa altura já ninguém me tratava por Frank, limitavam-se a dizer: "tu isto, tu aquilo, tua anda cá, tu não prestas, tu és um malandro, tu hás-de morrer e ninguém se lembrará de ti." Tomara muita gente ir vivendo à custa de umas míseras garrafas de vinho borbulhento armado em chique. O champanhe vicia. Alimenta é pouco.
Mas devo assim tanto? Tenho a vaga ideia de que a renda terá subido duas vezes no ano passado. Confesso não recordar o valor. Esta cabeça... Se fosse séria, teria mandado arranjar as frestas do tecto do meu quarto. Imagina o que é tentar adormecer com o som da água a encher alguidares de plástico? O seu mal é nunca ter entrado num hotel de cinco estrelas. Corri-os todos, sabe, quando esta cidade vivia de gente que gostava de viver. Pois, não me recordo de a ter visto por lá. Para sua sorte...
Com estes pulmões, talvez morra amanhã. Fechamos contas para sempre e fica feito. Faça depois o que entender com os tarecos: a cama de ferro, os fatos e os sapatos, o relógio, a cigarreira de prata.
Vou subir, quero sentar-me, tranquilo, a ver um filme: "As Neves do Kilimanjaro." Talvez me aguce a vontade de reler o livro.
Ah, antes que me esqueça: de manhã, no café, um tipo fez-me perguntas sobre o prédio. Afirmou que a conhecia mas não quis identificar-se. Um tipo gordo, quase careca, com uns dentes amarelos horríveis. Fique descansada, nada lhe disse. Como sempre, não sei de nada, não vi nada. Mas sim, estava muito interessado em saber o porquê de tantas grades e trancas na entrada. Vá, não se apoquente, foi só um bêbado. Ou está a magicar alguma? Posso saber o que é? Troco o filme por uma boa intriga. São as cartas de novo? Não diga que voltou a receber cartas anónimas? Confesso que nunca me convenci seriamente que tinham parado de vez. Não lho disse para não a apoquentar. Passados tantos anos? Bem, vou tomar um banho quente para afastar o frio e volto já. O filme fica para outra noite. Se quiser, e achar necessário, trago o revólver para baixo. E deixo as luzes acesas, sim, para da rua saberem que está gente.
© PVF, da série "Contos Ingleses", 2017)


[o texto nasceu para uma outra fotografia, mas esta pareceu-me mais adequada.
obrigada por teres aceite o desafio.]




junho 06, 2017

auto-retratos



"Os sonhos também são duplos. Outras faces de nós, desconhecidas. Auto-retratos sem espelho."
(Teolinda Gersão)




abril 07, 2017

dançar



"Acho que o meu problema não é não saber dançar
É não estar habituado a dançar"
(Philippe Didier in "Alegrias")




fevereiro 27, 2017

nunca sabemos



"Nunca sabemos, e nunca saberemos o que é compreender inteiramente outra pessoa"
(Elizabeth Strout)




fevereiro 23, 2017

fevereiro 16, 2017

quando...



"quando estiveres cansado de olhar uma flor, uma criança, uma pedra,
quando não te intrigar o existirem coisas e, numa noite de céu limpo nenhuma estrela te dirigir palavra,
quando não reparares que nunca reparaste no azul do mar,
quando estiveres farto de querer saber o que nunca saberás,
se nunca o amanhecer amanheceu sem ti,
se nunca nasceste por ti e não apenas pelos que te fizeram nascer,
se nunca soubeste que existias,
porque temes então a morte, se já estás morto?"
(Vergílio Ferreira)




janeiro 27, 2017

janeiro 24, 2017

demónios



"Só há demónios no mundo porque nós não os humanizamos. Porque os demónios somos todos ou nenhum de nós é."





janeiro 04, 2017

jogo de xadrez



"(...) havia de explicar que o mundo é um grande mistério e a vida um jogo de xadrez que Deus joga com o Diabo e umas vezes ganha um e outras vezes ganha o outro e o melhor que a gente faz, sendo os peões, é pôr muita beleza no nosso quadrado, ora preto ora branco e tentar entender com o coração o que não entendemos com a cabeça. (...)"
(Rosa Lobato de Faria, Pássaros de Seda)