junho 14, 2017

Frank



Na altura não quis perceber mas reconheço agora, vinte anos depois, que podia ter-me desgraçado aos quarenta anos. Nunca recusei um convite. Nunca fingi não ter ouvido o chamamento de uma aposta perigosa. Simplesmente sentir a vontade, deixar-me levar por ela. Vibrar com aquele frio na barriga que desconcerta. Ignorar as consequências, todas. Noites inteiras sem dormir. Noites inteiras em que não vi um colchão ou local que pudesse dizer que conhecia. Cheguei a esquecer onde morava. Quase esqueci o meu nome. A certa altura já ninguém me tratava por Frank, limitavam-se a dizer: "tu isto, tu aquilo, tua anda cá, tu não prestas, tu és um malandro, tu hás-de morrer e ninguém se lembrará de ti." Tomara muita gente ir vivendo à custa de umas míseras garrafas de vinho borbulhento armado em chique. O champanhe vicia. Alimenta é pouco.
Mas devo assim tanto? Tenho a vaga ideia de que a renda terá subido duas vezes no ano passado. Confesso não recordar o valor. Esta cabeça... Se fosse séria, teria mandado arranjar as frestas do tecto do meu quarto. Imagina o que é tentar adormecer com o som da água a encher alguidares de plástico? O seu mal é nunca ter entrado num hotel de cinco estrelas. Corri-os todos, sabe, quando esta cidade vivia de gente que gostava de viver. Pois, não me recordo de a ter visto por lá. Para sua sorte...
Com estes pulmões, talvez morra amanhã. Fechamos contas para sempre e fica feito. Faça depois o que entender com os tarecos: a cama de ferro, os fatos e os sapatos, o relógio, a cigarreira de prata.
Vou subir, quero sentar-me, tranquilo, a ver um filme: "As Neves de Kilimanjaro." Talvez me aguce a vontade de reler o livro.
Ah, antes que me esqueça: de manhã, no café, um tipo fez-me perguntas sobre o prédio. Afirmou que a conhecia mas não quis identificar-se. Um tipo gordo, quase careca, com uns dentes amarelos horríveis. Fique descansada, nada lhe disse. Como sempre, não sei de nada, não vi nada. Mas sim, estava muito interessado em saber o porquê de tantas grades e trancas na entrada. Vá, não se apoquente, foi só um bêbado. Ou está a magicar alguma? Posso saber o que é? Troco o filme por uma boa intriga. São as cartas de novo? Não diga que voltou a receber cartas anónimas? Confesso que nunca me convenci seriamente que tinham parado de vez. Não lho disse para não a apoquentar. Passados tantos anos? Bem, vou tomar um banho quente para afastar o frio e volto já. O filme fica para outra noite. Se quiser, e achar necessário, trago o revólver para baixo. E deixo as luzes acesas, sim, para da rua saberem que está gente.

© PVF, da série "Contos Ingleses", 2017)


[o texto nasceu para uma outra fotografia, mas esta pareceu-me mais adequada.
obrigada por teres aceite o desafio.]




junho 06, 2017

auto-retratos



"Os sonhos também são duplos. Outras faces de nós, desconhecidas. Auto-retratos sem espelho."
(Teolinda Gersão)




abril 07, 2017

dançar



"Acho que o meu problema não é não saber dançar
É não estar habituado a dançar"
(Philippe Didier in "Alegrias")




fevereiro 27, 2017

nunca sabemos



"Nunca sabemos, e nunca saberemos o que é compreender inteiramente outra pessoa"
(Elizabeth Strout)




fevereiro 23, 2017

fevereiro 16, 2017

quando...



"quando estiveres cansado de olhar uma flor, uma criança, uma pedra,
quando não te intrigar o existirem coisas e, numa noite de céu limpo nenhuma estrela te dirigir palavra,
quando não reparares que nunca reparaste no azul do mar,
quando estiveres farto de querer saber o que nunca saberás,
se nunca o amanhecer amanheceu sem ti,
se nunca nasceste por ti e não apenas pelos que te fizeram nascer,
se nunca soubeste que existias,
porque temes então a morte, se já estás morto?"
(Vergílio Ferreira)




janeiro 27, 2017

janeiro 24, 2017

demónios



"Só há demónios no mundo porque nós não os humanizamos. Porque os demónios somos todos ou nenhum de nós é."





janeiro 04, 2017

jogo de xadrez



"(...) havia de explicar que o mundo é um grande mistério e a vida um jogo de xadrez que Deus joga com o Diabo e umas vezes ganha um e outras vezes ganha o outro e o melhor que a gente faz, sendo os peões, é pôr muita beleza no nosso quadrado, ora preto ora branco e tentar entender com o coração o que não entendemos com a cabeça. (...)"
(Rosa Lobato de Faria, Pássaros de Seda)




dezembro 23, 2016

o importante



"O importante não é a casa onde moramos.
Mas onde, em nós, a casa mora."
(Mia Couto)




novembro 30, 2016

perpetuamente



"Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre.
Tudo quanto vive perpetuamente torna-se outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida"
(Fernando Pessoa)




novembro 25, 2016

incoerências



"A realidade é que a vida consiste em incoerências e estas precisam de ser aceites como fazendo parte dela"
(Etty Hillesum)




outubro 28, 2016

[Há lugar para mim nesse teu vazio?] *



[* Sílaba Súbita
(Liliana Carvalho e Francisco Moreira)]