setembro 22, 2016

levianos sentimentos



"Representar é aprender a viver além dos levianos sentimentos, na verdadeira dignidade"
(Guimarães Rosa)





agosto 31, 2016

dias assim



[despertares sem tempo.
cores, cheiros e ritmos diferentes.
outros sabores.
deixar que o espanto nos invada como se não tivéssemos idade.
e que se entranhe na pele o vento que sopra quente.
e rir de nada, no meio de nada, porque é quanto baste estar ali.
luas. marés.
e a alma que se enche de tudo e transborda no olhar sob um céu imenso de estrelas.
cumplicidades.
dias de sentir, apenas.]



 

agosto 28, 2016

agosto 02, 2016

junho 29, 2016

possibilidade



"Fica estabelecida a possibilidade
De sonhar coisas impossíveis
E de caminhar livremente em
direcção aos sonhos"
(Michel de Montaigne)




maio 11, 2016

[paisagem]



"Vê-se melhor quando não se vai para ver nada, quando os olhos procuram tudo o que se possa achar. E encontram tudo"
(Vergílio Ferreira)




abril 30, 2016

data sem calendário



""talvez... numa data sem calendário nos [re]encontremos.
talvez no sentemos no degrau do amanhã e, com o silêncio, consigamos empurrar a porta demorada no abrir (...)"




abril 07, 2016

convite



"um dia
convido-te para viajar.
oferecer-te-ei palavras
para construires o mapa.
no brilho dos teus olhos e no tremor de teus dedos,
lerei as estradas que traçarás.
um dia
convido-te para viajar
e os dois, de sonhos dados,
percorreremos versos
até chegarmos aos céus
onde os peitos segredam.
um dia
convidar-me-ás para viajar.
e eu terei a mala pronta,
cheia de horas adiadas
com cabelos já brancos,
agarrados ao fecho dos dias.
e o poema
escrever-se-á com os passos
que faremos
sem convite."
(© João Costa)




março 29, 2016

ao largo dos dias



"Não deixes
que o frio
te chegue aos ossos
Agasalha-te
e passa ao largo dos dias
Caso não seja
possível:
investe em melancolia
Mas agasalha-te
Não deixes
que o mundo
te dite o silêncio

Cala-o tu"




março 22, 2016

... mais do que falar



"Neste espaço branco de madrugada e lua cheia, preciso falar, e mais do que falar, preciso dizer. Mas as palavras não dizem tudo, não dizem nada."
(Caio Fernando Abreu)




fevereiro 24, 2016

Barnes



Barnes adorava sentar-se na sua cadeira manca enquanto comia pequenas migalhas de pão e bebia leite fresco. Não por ser doce, pois não lhes juntava qualquer tipo de açúcar, mas porque, no fundo, sabia que ele próprio era uma migalha ignóbil desejosa de atenção.
Identificava-se com isso. Uma pequenez avassaladora impossível de contornar. Demorou, pois, algum tempo até conseguir perceber que a vida na cidade, aquela pela qual tanto ambicionara, era de facto, para o bem e para o mal, mesmo assim e daquela forma dura e desconjuntada, como a velha cadeira que herdara dos avós. De que lhe adiantava estar sempre no meio de muitos, acompanhado de frenéticas algazarras e de garrafas e copos de champanhe transbordantes, se ao seu lado subsistia o vácuo da imagem de quem realmente interessava e lhe fazia bem?Por ter medo dos automóveis nunca aprendeu a conduzir. Deslocava-se sempre a pé e frequentemente recorria a táxis e a boleias de desconhecidos. E a boleia de desconhecidos numa cidade não é algo tão frequente quanto isso. Daí que as pessoas, críticas, o censurassem ao vê-lo chegar-se à beira do passeio das ruas chiques, de dedo erguido ao céu, atrevido e a fazer-se de convidado.Era muito frequente passar a hora de almoço nos jardins, e como comia pouco, ficava com mais tempo para, simplesmente, focar a sua atenção nos pormenores das pessoas que passavam à sua frente, cruzando-se ao acaso. Tomou consciência daquilo que queria depois de ver o voo rasante de um bando de papagaios verdes vindos do nada. A cidade tem pássaros mas não tem papagaios, muito menos papagaios verdes, de asas imponentes. E se os sinais querem dizer alguma coisa, então, é de aproveitá-los.
Durante muito tempo, Barnes havia sido o homem mais alienado à face da terra. Assolavam-lhe, diariamente, vindos de vários quadrantes, explosões de vida, dos encontros alegres e dos momentos felizes que, mesmo assim, toldado por egoísmo aguerrido e traiçoeiro, não conseguia ver. Abria-se pouco e pouco ou nada dava de si mesmo.
Finalmente acreditou que tudo, por mais difícil que fosse de alcançar, era possível. A maior batalha da sua vida estava a começar. A vitória: o seu maior desejo. Imaginava-se feliz e ao lado da pessoa que escolhera, a pessoa da qual já conhecia o rosto e os defeitos.

© PCV 2016, da série "Contos Ingleses")


[da fotografia, nasceram as palavras. obrigada por teres aceite o desafio.]