março 29, 2016
ao largo dos dias
"Não deixes
que o frio
te chegue aos ossos
Agasalha-te
e passa ao largo dos dias
Caso não seja
possível:
investe em melancolia
Mas agasalha-te
Não deixes
que o mundo
te dite o silêncio
Cala-o tu"
março 22, 2016
... mais do que falar
"Neste espaço branco de madrugada e lua cheia, preciso falar, e mais do que falar, preciso dizer. Mas as palavras não dizem tudo, não dizem nada."
(Caio Fernando Abreu)
março 11, 2016
fevereiro 24, 2016
Barnes
Barnes adorava sentar-se na sua cadeira manca enquanto comia pequenas migalhas de pão e bebia leite fresco. Não por ser doce, pois não lhes juntava qualquer tipo de açúcar, mas porque, no fundo, sabia que ele próprio era uma migalha ignóbil desejosa de atenção.
Identificava-se com isso. Uma pequenez avassaladora impossível de contornar. Demorou, pois, algum tempo até conseguir perceber que a vida na cidade, aquela pela qual tanto ambicionara, era de facto, para o bem e para o mal, mesmo assim e daquela forma dura e desconjuntada, como a velha cadeira que herdara dos avós. De que lhe adiantava estar sempre no meio de muitos, acompanhado de frenéticas algazarras e de garrafas e copos de champanhe transbordantes, se ao seu lado subsistia o vácuo da imagem de quem realmente interessava e lhe fazia bem?Por ter medo dos automóveis nunca aprendeu a conduzir. Deslocava-se sempre a pé e frequentemente recorria a táxis e a boleias de desconhecidos. E a boleia de desconhecidos numa cidade não é algo tão frequente quanto isso. Daí que as pessoas, críticas, o censurassem ao vê-lo chegar-se à beira do passeio das ruas chiques, de dedo erguido ao céu, atrevido e a fazer-se de convidado.Era muito frequente passar a hora de almoço nos jardins, e como comia pouco, ficava com mais tempo para, simplesmente, focar a sua atenção nos pormenores das pessoas que passavam à sua frente, cruzando-se ao acaso. Tomou consciência daquilo que queria depois de ver o voo rasante de um bando de papagaios verdes vindos do nada. A cidade tem pássaros mas não tem papagaios, muito menos papagaios verdes, de asas imponentes. E se os sinais querem dizer alguma coisa, então, é de aproveitá-los.
Durante muito tempo, Barnes havia sido o homem mais alienado à face da terra. Assolavam-lhe, diariamente, vindos de vários quadrantes, explosões de vida, dos encontros alegres e dos momentos felizes que, mesmo assim, toldado por egoísmo aguerrido e traiçoeiro, não conseguia ver. Abria-se pouco e pouco ou nada dava de si mesmo.
Finalmente acreditou que tudo, por mais difícil que fosse de alcançar, era possível. A maior batalha da sua vida estava a começar. A vitória: o seu maior desejo. Imaginava-se feliz e ao lado da pessoa que escolhera, a pessoa da qual já conhecia o rosto e os defeitos.
( © PVF, da série "Contos Ingleses", 2016)
[da fotografia, nasceu o texto. obrigada por teres aceite o desafio.]
fevereiro 18, 2016
fevereiro 09, 2016
Ryan
A peculiaridade do problema era
óbvia. A originalidade não necessariamente um factor de regozijo.
O dia amanheceu escuro, engolido por
um Inverno déspota e teimosamente a querer dar nas vistas. Ryan, que até
gostava do toque da chuva, não pensava sequer nisso agora, embrenhado noutro
tipo de pensamentos. Lá fora a água escorria em catadupa rua abaixo, capaz de
inundar os tornozelos das senhoras calçadas com sapatos de salto alto. Sentado
no sofá, envergando um copo com vinho tinto na mão, bebericava um líquido que
considerava amartelado, de fraca qualidade e algo que apenas tolerava consumir
quando se encontrava sozinho. O que era o caso.
Estava preso a um estilo de vida do
qual começava a envergonhar-se. Acusava já a frustração de não conseguir
resistir aos impulsos. E pior, começava a sentir-se viciado. Noite após noite,
bêbado, deitava-se em lençóis maculados de odor a roçar o insuportável. Fumava
na cama até altas horas da madrugada, de olhar fixo nas sombras que dançavam no
tecto escurecido.
Uma noite, adormeceu de cigarro na
mão e só por sorte que conseguiu acordar a tempo, segundos antes de se deixar
imolar por um fogo que já controlava grande parte do lençol. O susto foi de tal
ordem que caiu cama abaixo num barulho seco e potente a fazer lembrar o troar
de um relâmpago. Nenhuma sequela física.
Dez horas da manhã e a garrafa já
seguia a mais de meio. Uma coerência invulgar com a precisão de um relógio
suíço. Uma velocidade de evaporação exponencial a cada novo copo. Ryan o
bebedolas, pensava para si mesmo. Ryan o esponja. Ryan o Zé Ninguém.
Arrotou com estrondo para soltar uma
bolha de gás acumulada nas costelas e que lhe estava a causar um forte
desconforto. Talvez a sorte mudasse em segundos. Esperou, mas, desesperou.
Bebeu mais um copo. De uma assentada só, sem respirar. Culpou-se por não ter
comprado tabaco na noite anterior.
Envolto no cheiro agridoce do último
cigarro pronunciou em surdina as palavras que gostaria de voltar a ouvir… amo-te.
( © PCV, da série "Contos Ingleses", 2012)
[do texto nasceu a fotografia. obrigada pelo desafio.]
fevereiro 03, 2016
janeiro 25, 2016
janeiro 22, 2016
janeiro 13, 2016
janeiro 11, 2016
janeiro 07, 2016
janeiro 01, 2016
urgência
"eu sei, pode parecer estranha a ugência de te ver. mas é que tenho algo para te dizer há já tanto tempo que não podia esperar mais.
sem grandes certezas, bom... sei hoje que já é assim há algum tempo. entre desencontros e outros caminhos percorridos, neste tempo nem tu nem eu... espera deixa-me falar. de ti não sei na verdade, mas eu estou disponível para te abraçar. hoje e todos os dias. sem ter que o esconder. e sem ter mais que ser segredo. nem um sonho. é talvez a aposta de uma vida. a mais séria que já fiz.
e é por isso que tinha mesmo que te ver. porque era isto que tinha para te dizer....
de ti não sei, mas eu é para sempre que quero ficar."
no dia em que a urgência do alvoroço que me toma se precipitar ao receio, é isto que te quero dizer.
dezembro 28, 2015
dezembro 25, 2015
dezembro 03, 2015
novembro 30, 2015
novembro 16, 2015
o que está perto
"o que dá verdadeiro sentido ao encontro é a busca, e é preciso andar muito para se alcançar o que está perto"
(José Saramago)
[no dia do seu aniversário]
outubro 27, 2015
pior do que perder...
"O pior é sempre o momento em que se desiste. Mas pior do que o momento em que se desiste é o momento em que se decide desistir. O momento em que, com coragem, se consegue dizer: acabou.
Pior do que o efectivo instante em que se acaba é o efectivo instante em que se decide que acabou. É aí, e não antes nem depois, que a dor maior assoma: é aí que a derrota assoma.
Pior do que perder é ser obrigado a decidir perder."
(Pedro Chagas Freitas in "SEXUS VERITAS")
Subscrever:
Mensagens (Atom)




