janeiro 26, 2014
janeiro 22, 2014
"o passado é aquilo que conseguimos fazer do futuro"
[hoje, passam cinco anos desde que iniciei este blog.
o passado parece-me já uma outra vida.
o futuro continuo a construí-lo, no presente.
todos os dias!]
janeiro 15, 2014
janeiro 12, 2014
dissolvo-me
"De certeza que já te cruzaste comigo mil vezes, mas o teu olhar nunca se fixou em mim. Admiras-te? Sou assim: não atraio a atenção. Sou um camaleão humano ou algo parecido. Dissolvo-me no que me rodeia, faço parte da paisagem: não tenho nada em que os olhos se prendam. Tudo em mim é de tal forma comum que as pessoas olham e não me vêem."
janeiro 04, 2014
dia-a-dia
"Há muitas coisas que percebo que não sou, mas dizer exactamente o que sou não consigo.
Tento, dia-a-dia, ganhar o título de ser uma pessoa. E já não é pouco"
(José Luís Peixoto)
janeiro 01, 2014
o que será?
"O que será ser só
Quando outro dia amanhecer?
Será recomeçar?
Será ser livre sem querer?"
(Chico Buarque)
Quando outro dia amanhecer?
Será recomeçar?
Será ser livre sem querer?"
(Chico Buarque)
dezembro 25, 2013
dezembro 06, 2013
palavras
"Custa-me falar. Custa-me dizer palavras que não conduzam a lado nenhum, que não originem intimidade, que não toquem . E por vezes, penso: vou gastando as minhas palavras, assim, desapaixonadamente, desinteressadamente; e quando precisar mesmo delas - ainda acredito que esse dia chegará -, descobrirei que se me acabaram; procurarei dentro de mim e não encontrarei; apenas o vazio estará lá: maior que hoje. E preocupo-me: porque não sei onde se podem ir buscar palavras, não sei se é possível obter e usar mais palavras que aquelas que nos dão à nascença (nascemos apenas com dois olhos, e assim temos de sobreviver; nunca ninguém pensou partir pelo mundo em busca de mais olhos, por achar que dois são insuficientes).
(...)
Penso (pensar não gasta palavras) muitas coisas, assim. E tenho pena de não poder falar disto a ninguém, não ter as palavras necessárias em mim. Sinto-me deficiente: nasci com défice de palavras. (...)"
[excerto da estória "Gastar palavras" de Paulo Kellerman]
novembro 25, 2013
novembro 17, 2013
novembro 11, 2013
convite
um só olhar. e isso bastou para que aceitasse(s) ficar. em silêncio, selámos a verdade do que sentíamos num abraço. sem que nada fosse preciso falar.
novembro 06, 2013
novembro 02, 2013
[Símbolo de mudança]
- Uau. Adoro esses sapatos.
- Sim? Também gosto muito.
- Deves ficar estupenda com eles. Mas nunca te vi usá-los.
- Pois não. Nunca os usei.
- A sério? Nem acredito. Porquê?
- Não sei explicar bem. Tem a ver com o facto de serem especiais, acho eu.
- Como assim?
- Sabes como é, os dias são tão iguais que já nem conseguimos distingui-los; não achas? É como se a vida fosse a repetição de uma repetição, como se vivêssemos repetições infindáveis e inconsequentes; como se vivêssemos numa rotunda, sempre às voltas. E as memórias que se vão acumulando desses dias acabam por também ser repetições indistinguíveis e, portanto, quase irrelevantes. É um bocado triste, não é? Vivemos um presente tão repetitivo que o passado que vamos deixando para trás acaba por ser uma nulidade, uma ilusão, um equívoco. E, afinal, é o passado que nos dá um sentido de continuidade e evolução, sem consciência do passado a vida transforma-se numa mera colecção de momentos.
- Pois. Mas e os sapatos? Que tem tudo isso a ver com os sapatos?
- Não te rias mas acho que estou à espera que aconteça algo especial. E então, nesse dia, que não será uma simples cópia dos outros dias mas uma espécie de intervalo na repetição, usarei os sapatos. Nesse dia, conseguirei sair da rotunda e experimentar um caminho novo. E sentir-me-ei especial, não só por ser um dia especial mas também por usar uns sapatos que são especiais; as duas coisas tornar-se-ão indissociáveis. Percebes? Depois, quando o dia passar, terei para sempre uma memória inequívoca desse dia especial: bastará olhar os sapatos. Serão um símbolo de mudança ou algo assim.
- Que estranheza de teoria. E não bastava tirares muitas fotografias, durante esse tal dia especial? É para isso que existem as máquinas, posso emprestar-te a minha. Tem treze megapixéis.
- É, se calhar tens razão. Deixa lá, esquece. Já sabes que gosto de devanear.
- Olha, sabes o que estava a pensar? Na sexta-feira vou sair com aquele tipo de que te falei, o que conheci no facebook. O das motas, lembras-te? Vai levar-me àquele sítio novo, perto do rio; aquele onde vão as actrizes de telenovela, ando mortinha para ir lá. E estava aqui a pensar que os teus sapatos ficavam mesmo bem com o vestido que quero levar. Não queres emprestar-mos? Prometo que os devolvo impecáveis, nem dás por nada.
(Paulo Kellerman)
outubro 26, 2013
[um relógio a tiquetaquear]
"A minha avó morreu. Ontem. Visitei-a dois dias antes. Não a via há meses e pareceu-me na mesma,
como sempre. Conversámos as mesmas conversas do último encontro, fomos
repetindo as mesmas insignificâncias delicadas e inconsequentes. Gostou
especialmente de ver a minha filha; deu-lhe umas pantufas que recebeu
num natal distante e que não lhe serviram, que por timidez ou
generosidade não quis trocar. Daqui cinco anos já lhe servem, disse ela;
e apertou-as muito bem no papel de embrulho, como se fossem preciosas.
Pensei: que significarão cinco anos para quem pode viver apenas mais
cinco horas?
Não parei quieto, impaciente e envergonhado por estar com pressa de
partir; como se o meu tempo fosse precioso. Indiferente à minha
urgência, foi listando tudo o que iria oferecer à bisneta, tudo o que
ainda queria fazer com ela, para ela.
Depois, falámos de médicos. Falámos de casas. Falámos dos vizinhos. Falámos de futuro.
De repente, disse: vou apanhar uma galinha para fazerem canja. E eu,
que não saberia o que fazer com uma galinha, respondi, apressado, talvez
contrariado: não, apanha-a noutro dia qualquer e faz a canja; depois,
jantamos cá. Ela insistiu na oferta, eu insisti na recusa; incapaz de
perceber que forçá-la a adiar era torturá-la. Por fim, desistiu.
Insultou-me por não querer comer nada, por não querer beber nada. Deu
guloseimas à bisneta e ficou triste por eu não permitir que lhe enchesse
os bolsos de rebuçados. Prometi que voltaríamos daí a uns dias.
Voltámos costas. Não viu o último adeus que a minha filha lhe acenou.
A galinha lá andará, ainda.
O caixão é transportado por nós, os netos. Terão passado anos desde a
última vez que estivemos todos juntos, com ela. Caminho e vou pensando,
tentando distrair-me da dor que o peso da morte provoca, mas não me
lembro da última vez em que estivemos todos reunidos. Um jantar
qualquer, em que todos, ou quase todos, estaríamos contrariados, a comer
a galinha com arroz e batatas fritas, à espera da libertação. Como se
fosse penoso estar com quem nos ama. Terá sido essa a última vez. E
agora: todos juntos, agarrando o caixão.
Tenho a certeza que ela gostaria muito de ver todos os netos reunidos
em seu redor, reunidos para si. Claro que agora é tarde demais; e
pergunto, indignado comigo próprio: teria custado assim tanto?
Penso na fotografia que ela guardou durante anos em cima da
televisão: os cinco netos, sorrindo. Sorrisos condescendentes, de quem
não teme o futuro; sorrisos arrogantes, de quem ainda não aprendeu a
saborear o presente, o momento, a insignificância.
Sorrisos de idiotas.
Pediu: dá corda ao relógio que eu já não tenho força. E eu dei,
devagarinho, para não estragar um relógio que é, com toda a certeza,
mais velho do que eu. Ela disse: mais. E eu fui dando.
Quando vim embora, o relógio ficou a trabalhar. Certamente que,
agora, ainda está a trabalhar. Não sei para quê. Não sei se faria alguma
diferença se todos deixássemos de dar corda aos nossos relógios.
Imagino o quarto escuro e silencioso, vazio; o relógio a tiquetaquear, monotonamente.
Imagino o relógio a assinalar as horas que vão passando, com a sua
melodia ingénua e melancólica. E pergunto-me: o que lhe diria se
soubesse que a morte rondava? Não estava especialmente doente, nada
indiciava que a morte pudesse estar tão próxima; mas se tivessem
existido sinais, se me passasse pela cabeça que dois dias mais tarde
estaria morta, que lhe diria? O que se diz a uma pessoa que vai morrer?
O padre diz: a família deve estar agradecida porque esta nossa irmã partiu em paz.
Não compreendo isto. Não consigo estar agradecido. Porque haveria de estar agradecido?
Desligo, não quero ouvir mais. Tento recordar a última vez que me
sentei num destes bancos; não consigo, tenho a memória vazia; reparo que
a pintura das paredes é nova; ou talvez não, talvez esteja enganado. O
cheiro é o mesmo da infância. Penso: passaram tantos anos; mas o tempo
não passou, realmente. Depois, penso isto: a próxima vez que entrar
nesta igreja será porque mais alguém morreu. E não consigo suportar o
pensamento, não consigo forçar-me ao jogo mórbido de adivinhar quem.
Regresso ao padre, em busca de distracção. Vai alinhavando
insignificâncias, improvisando banalidades generosas mas inconsequentes.
Surpreende-me que as pessoas se sintam confortadas por esta série de
lugares-comuns, de generalidades aparentemente bem intencionadas mas, na
verdade, cruelmente restritivas e condicionantes. Penso: belo
palavreado, bela encenação, bela distracção. Olho em redor: o padre
balbucia justificações, os ouvintes escutam; porque é essa a sua função,
o desígnio que o seu deus lhes destinou: escutar e aceitar.
Todos escutam. E aceitam.
Deu-me uma nota de cinquenta euros. Fiz-me difícil mas aceitei. É a
prenda de natal, disse ela. É a prenda de despedida, penso eu. Agora.
Não sei que fazer a esta nota.
Há homens que choram. Homens de aldeia, rijos e firmes, orgulhosos,
homens sofredores, homens pacientes e lutadores, homens cansados e
tristes. Entram resistentes e formais, cerimoniosos; saem a chorar.
Choram silenciosamente, com embaraço mas sem vergonha: é assim que
choram estes homens. E pergunto-me: como seria o meu choro, se
conseguisse chorar?
Algures a meio da adolescência iniciei o percurso que me conduziu a
um ateísmo que, de momento, me parece indefectível. Ela percebeu o meu
afastamento e temeu a minha salvação; sei que fez promessas. E também
mandou rezar missas; por mim, para mim. E eu, do cimo da minha
arrogância, sorri.
Agora, apetece-me pegar nos cinquenta euros e mandar rezar meia dúzia de missas. Cinquenta euros de missas: por ela, para ela.
Porque amar também é isso: fazer o que se sabe que o outro desejaria,
por mais insignificante ou até burlesco que nos pareça. Desistir
daquilo em que acreditamos ou prescindir daquilo que somos, mesmo que
momentaneamente: e oferecer ao outro um sorriso, ou uma possibilidade de
sorriso. Esquecermo-nos: e saborear o sorriso do outro.
Caminhamos pelas ruas tranquilas da minha infância.
O caixão avança devagarinho, atrás a multidão geme silenciosamente.
Um silêncio feito de murmúrios e rumores, de chilreares de pássaros
invisíveis e da cantoria fantasmagórica dos sinos, de arrastares de pés e
estalos de bengalas. Há, também, lágrimas que se ouvem. Há tristezas
que pairam, que convidam à desistência, à rendição; ou talvez sejam
apenas nuvens a passar, apressadas e opressivas.
Algures, um chiar que se intromete na banda sonora da morte: o
guincho dos meus ténis, sempre que o meu pé esquerdo pisa a estrada.
Irrito-me. Penso: uns ténis comprados na feira custariam um décimo do
preço e talvez não chiassem, talvez fossem igualmente confortáveis.
Penso nisto, nos meus ténis de marca, porque é uma maneira de não pensar
em mais nada. Atrás de mim caminham os velhos lavradores que eram
amigos da minha avó; caminham cabisbaixos, olhares firmes na estrada,
perguntando-se quando deixarão de pisar chão firme; talvez algum deles
olhe os meus ténis, talvez algum deles repare nas letras orgulhosas, na
marca, talvez algum deles consiga ler essas letras; e não deixará de se
interrogar. Diesel? Agora também há sapatilhas diesel? E funcionarão com
gasóleo agrícola?
Sorrio. E não tento esconder ou disfarçar o sorriso.
O caixão avança, empoleirado numa carrinha rodeada de flores. E eu
atrás, sorrindo. Agora, que ela já não o pode fazer, sorrio eu; por ela,
para ela.
Nas ruas tranquilas da minha infância, onde ficou o meu passado.
Não sei para que estou a escrever tudo isto. A minha avó não sabia ler."
(Paulo Kellerman)
[um imenso obrigada à Marta Vaz por ter dado uma outra vida e um outro sentido à minha fotografia, ilustrando-a com esta estória (que não é uma estória porque em cada linha há apenas verdade, como refere o autor) absolutamente enternecedora e tocante, do Paulo Kellerman. a ambos, deixo um sorriso.]
(Paulo Kellerman)
[um imenso obrigada à Marta Vaz por ter dado uma outra vida e um outro sentido à minha fotografia, ilustrando-a com esta estória (que não é uma estória porque em cada linha há apenas verdade, como refere o autor) absolutamente enternecedora e tocante, do Paulo Kellerman. a ambos, deixo um sorriso.]
outubro 24, 2013
... a pedra esfarela-se
"O irreal é mais poderoso que o real.
Porque nada é tão perfeito como tu és capaz de imaginar.
Porque são só as ideias intangíveis, conceitos, crenças, fantasias que duram. A pedra esfarela-se. A madeira apodrece. As pessoas, bem, essas morrem.
Mas coisas tão frágeis como um pensamento, um sonho, uma lenda, essas continuam para sempre.
Se conseguires mudar a maneira como as pessoas pensam, dizia ela. A maneira como elas se vêem a si próprias. A maneira como vêem o mundo. Se fizeres isso, consegues mudar a maneira como as pessoas vivem as suas vidas. E isso é a única coisa duradoura que podes criar. "
(Chuck Palahniuk, in 'Asfixia')
Porque nada é tão perfeito como tu és capaz de imaginar.
Porque são só as ideias intangíveis, conceitos, crenças, fantasias que duram. A pedra esfarela-se. A madeira apodrece. As pessoas, bem, essas morrem.
Mas coisas tão frágeis como um pensamento, um sonho, uma lenda, essas continuam para sempre.
Se conseguires mudar a maneira como as pessoas pensam, dizia ela. A maneira como elas se vêem a si próprias. A maneira como vêem o mundo. Se fizeres isso, consegues mudar a maneira como as pessoas vivem as suas vidas. E isso é a única coisa duradoura que podes criar. "
(Chuck Palahniuk, in 'Asfixia')
outubro 22, 2013
outubro 20, 2013
outubro 17, 2013
outubro 14, 2013
outubro 06, 2013
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