fevereiro 24, 2016

Barnes



Barnes adorava sentar-se na sua cadeira manca enquanto comia pequenas migalhas de pão e bebia leite fresco. Não por ser doce, pois não lhes juntava qualquer tipo de açúcar, mas porque, no fundo, sabia que ele próprio era uma migalha ignóbil desejosa de atenção.
Identificava-se com isso. Uma pequenez avassaladora impossível de contornar. Demorou, pois, algum tempo até conseguir perceber que a vida na cidade, aquela pela qual tanto ambicionara, era de facto, para o bem e para o mal, mesmo assim e daquela forma dura e desconjuntada, como a velha cadeira que herdara dos avós. De que lhe adiantava estar sempre no meio de muitos, acompanhado de frenéticas algazarras e de garrafas e copos de champanhe transbordantes, se ao seu lado subsistia o vácuo da imagem de quem realmente interessava e lhe fazia bem?Por ter medo dos automóveis nunca aprendeu a conduzir. Deslocava-se sempre a pé e frequentemente recorria a táxis e a boleias de desconhecidos. E a boleia de desconhecidos numa cidade não é algo tão frequente quanto isso. Daí que as pessoas, críticas, o censurassem ao vê-lo chegar-se à beira do passeio das ruas chiques, de dedo erguido ao céu, atrevido e a fazer-se de convidado.Era muito frequente passar a hora de almoço nos jardins, e como comia pouco, ficava com mais tempo para, simplesmente, focar a sua atenção nos pormenores das pessoas que passavam à sua frente, cruzando-se ao acaso. Tomou consciência daquilo que queria depois de ver o voo rasante de um bando de papagaios verdes vindos do nada. A cidade tem pássaros mas não tem papagaios, muito menos papagaios verdes, de asas imponentes. E se os sinais querem dizer alguma coisa, então, é de aproveitá-los.
Durante muito tempo, Barnes havia sido o homem mais alienado à face da terra. Assolavam-lhe, diariamente, vindos de vários quadrantes, explosões de vida, dos encontros alegres e dos momentos felizes que, mesmo assim, toldado por egoísmo aguerrido e traiçoeiro, não conseguia ver. Abria-se pouco e pouco ou nada dava de si mesmo.
Finalmente acreditou que tudo, por mais difícil que fosse de alcançar, era possível. A maior batalha da sua vida estava a começar. A vitória: o seu maior desejo. Imaginava-se feliz e ao lado da pessoa que escolhera, a pessoa da qual já conhecia o rosto e os defeitos.

© PCV 2016, da série "Contos Ingleses")


[da fotografia, nasceram as palavras. obrigada por teres aceite o desafio.]





fevereiro 09, 2016

Ryan



A peculiaridade do problema era óbvia. A originalidade não necessariamente um factor de regozijo.
O dia amanheceu escuro, engolido por um Inverno déspota e teimosamente a querer dar nas vistas. Ryan, que até gostava do toque da chuva, não pensava sequer nisso agora, embrenhado noutro tipo de pensamentos. Lá fora a água escorria em catadupa rua abaixo, capaz de inundar os tornozelos das senhoras calçadas com sapatos de salto alto. Sentado no sofá, envergando um copo com vinho tinto na mão, bebericava um líquido que considerava amartelado, de fraca qualidade e algo que apenas tolerava consumir quando se encontrava sozinho. O que era o caso.
Estava preso a um estilo de vida do qual começava a envergonhar-se. Acusava já a frustração de não conseguir resistir aos impulsos. E pior, começava a sentir-se viciado. Noite após noite, bêbado, deitava-se em lençóis maculados de odor a roçar o insuportável. Fumava na cama até altas horas da madrugada, de olhar fixo nas sombras que dançavam no tecto escurecido.
Uma noite, adormeceu de cigarro na mão e só por sorte que conseguiu acordar a tempo, segundos antes de se deixar imolar por um fogo que já controlava grande parte do lençol. O susto foi de tal ordem que caiu cama abaixo num barulho seco e potente a fazer lembrar o troar de um relâmpago. Nenhuma sequela física.
Dez horas da manhã e a garrafa já seguia a mais de meio. Uma coerência invulgar com a precisão de um relógio suíço. Uma velocidade de evaporação exponencial a cada novo copo. Ryan o bebedolas, pensava para si mesmo. Ryan o esponja. Ryan o Zé Ninguém.
Arrotou com estrondo para soltar uma bolha de gás acumulada nas costelas e que lhe estava a causar um forte desconforto. Talvez a sorte mudasse em segundos. Esperou, mas, desesperou. Bebeu mais um copo. De uma assentada só, sem respirar. Culpou-se por não ter comprado tabaco na noite anterior.
Envolto no cheiro agridoce do último cigarro pronunciou em surdina as palavras que gostaria de voltar a ouvir… amo-te.

© PCV 2012, da série "Contos Ingleses")


[das palavras nasceu a fotografia. obrigada pelo desafio.]